quarta-feira, 17 de abril de 2024

Galinhas - Rafael Barret

(tradução de Paulo Raviere)

Quando não possuía nada além de meu catre e meus livros, eu era feliz. Agora possuo nove galinhas e um galo, e minha alma está perturbada.

A propriedade me tornou cruel. Sempre que eu comprava uma galinha, amarrava-a numa árvore durante dois dias, para impor-lhe o meu domicílio, destruindo na sua memória frágil o amor por sua antiga residência. Remendei a cerca de meu quintal, a fim de evitar a fuga de minhas aves e a invasão de raposas de quatro e de dois pés. Me isolei, fortifiquei a fronteira, tracei uma linha diabólica entre mim e meu vizinho. Dividi a humanidade em duas categorias: eu, dono das minhas galinhas, e os demais, que poderiam tirá-las de mim. Defini o delito. Para mim, o mundo está cheio de aparentes ladrões e, pela primeira vez, lancei um olhar hostil para o outro lado da cerca.


gravura da Casa Taller Sirirí


Meu galo era muito jovem. O galo do vizinho pulou a cerca e começou a cortejar minhas galinhas e a amargurar a existência do meu galo. Expulsei o intruso a pedradas, mas elas pulavam a cerca e botavam ovos na casa do vizinho. Reivindiquei os ovos e meu vizinho me aborreceu. Desde então vi seu rosto por cima da cerca, seu olhar inquisidor e hostil, idêntico ao meu. Seus frangos atravessavam a cerca e devoraram o milho molhado que eu deixava para os meus. Os frangos dos outros pareceram-me criminosos. Eu os persegui e, cego de raiva, matei um deles. O vizinho atribuiu grande importância ao ataque. Não aceitou uma compensação financeira. Retirou gravemente o cadáver do seu frango e, em vez de comê-lo, mostrou-o aos amigos, então começou a circular pelo povoado a lenda de minha brutalidade imperialista. Tive que reforçar a cerca, aumentar a vigilância, elevar, em uma palavra, o meu orçamento de guerra. O vizinho dispõe de um cachorro determinado a fazer qualquer coisa; estou pensando em comprar um revólver.

Onde está minha velha tranquilidade? Estou envenenado pela desconfiança e pelo ódio. O espírito do mal se apoderou de mim. Antes eu era um homem. Agora sou um proprietário…

Rafael Barret (1876-1910) foi um escritor, filósofo e ativista libertário espanhol, radicado no Paraguai. Tradução feita a partir do zine De reglas y anarquia (Chiquitico, Bogotá, 2014).

Paulo Raviere (1986) é tradutor, escritor, e editor da Canarana. Publicou o romance Todos se Lavam no Sangue do Sol (DarkSide Books, 2022).

Leia esse e muitos outros texto na Canarana #2. Peça a sua aqui pelo zap

Casa Taller Sirirí é um projeto de artes plásticas, visuais, cênicas, musicais, culinárias e dança. Sediado em Popayán-Cauca-Colômbia. Cristian Bernardo Muñoz Bravo é artista plástico e trabalha com pintura a óleo, ilustração digital e gravura em linóleo, madeira e metal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário