quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Dois poemas de Natália Agra

Deus termina aqui

Para Claudio Willer 

hasteia o perigo
ante os olhos do inimigo
diante do abismo 
levante de classe
avante combate
rasteiro no estrume 
lambe água de açude

o quão fundo é este poço?
mergulho ríspido
quantos passos até cair?
freia, cavalo
 
inclinados, 
os ossos brilham
breve como a eternidade
ou quase

adormeces


À esquerda 

A violência envenena-me - Herberto Helder

As águas estavam turvas no monturo 
as janelas estavam cobertas de água escura 
o aço dos pés 
a mola das veias 
o sangue sem crepúsculo 
o motim erguido no viaduto
 
em nossa direção, lentamente o sol vela 
o futuro do trabalho 
abandonadas à esperança 
testemunhas estrépitas lufam suas vozes:
suerte para 
estos
proletarios nómadas
 
a penumbra hasteia a sua bandeira 
o último a cair
 
(joga a bigorna/
joga o lixo fora)

vai, destrói com uma só mão o coração do abismo

-

(Há um terceiro poema na Revista Canarana impressa, e também uma imagem produzida por Beeau Gómez

peça a sua aqui pelo zap


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